Thunderstorm II – Capítulo 26

22 01 2012

26- De volta às cores

 “Sua mente esta agitada/ Eles dizem que você esta se tornando melhor, mas você não sente nenhuma melhora.” Hearing Damage – Thom York

 

(Ponto de vista de Julia Benatti)

Eu não me lembro de como fiquei quando voltei para o Brasil, mas com certeza, não foi deste jeito. Era como se de repente eu não conseguisse ver, ouvir ou sentir. Era tudo muito automático e sem pensamento. Talvez fosse melhor assim, talvez eu não tivesse conseguido continuar vivendo se eu não tivesse me desligado deste modo.

Já tinham se passado dois ou três dias, eu não tinha certeza do tempo aqui, já que eu não via o céu – ou qualquer outra coisa -, e nem me preocupava em olhar relógios, mas eu me lembro de ter ido para a cama algumas vezes. Me lembro também de não ter conseguido dormir nenhuma destas vezes.

Na verdade, eu não tinha nenhuma lembrança concreta desde aquele dia, desde aquela ligação. Eu sabia que estava certa em fazer isso, em deixar o tempo passar. Logo teriam passado meses, anos e então séculos. Era tudo o que eu queria, que o tempo passasse e eu não o visse passar; não queria sentir a dor que os ponteiros do relógio provocaram em uma certa parte de minha mente – que era a única que eu sentia, já que os meus sentimentos estavam adormecidos -, não queria perceber que daqui à algum tempo a dor neste canto especial da minha mente iria desaparecer e dar lugar à algum tipo de alegria que a minha mente jamais sentiria.

Olhei meu reflexo no espelho sem exatamente ver alguma coisa. As olheiras se sobressaíam na minha pele branca e opaca – ela havia perdido o brilho à algum tempo indeterminado -, meus lábios estavam apagados e assumiam um tom estranhamente arroxeado. Meus cabelos estavam presos em um rabo mal feito caído apenas para que não dessem o trabalho de cair sobre meus olhos e eu ter que tirá-lo antes que alguém fizesse por mim.  O vestido –que agora eu já tinha me acostumado – cor de bronze bem escuro quase não aparecia por causa do manto cinza escuro que agora já usava sem pestanejar. Tudo aquilo, aquelas características e aquelas roupas já faziam parte do meu novo eu: a sem vida.

Saí do quarto e passei pela porta do quarto da Paula direto, eu sabia que ela ainda não tinha acordado pelo ritmo lento que seu coração batia. Não pensei em acordá-la, provavelmente ela preferiria acordar com Alec a chamando para tomar café.

Passei pelos corredores que eu ainda não conhecia muito bem e resolvi passar pela minha área preferida daquele lugar – a biblioteca. Muito raramente havia alguém lá e eu podia escolher um livro qualquer e ler. Mas eu ainda não tinha decorado o caminho para a biblioteca, então fui remexendo em minha memória as vezes que Jane e Phelipe me levaram até lá – muitas vezes em poucos dias -, infelizmente eu não conseguia lembrar-me de nenhum corredor específico ali.

Subi as escadas até que elas se acabaram. Estranho, eu acho que nunca tinha estado ali. Pisquei meus olhos fortemente tentando me concentrar em algo, mas eu estava absorta a tanto tempo que nem me lembrava de como eu conseguia me ligar ao mundo real.

Eu já ia descer novamente e procurar alguém para me informar onde diabos eu achava a biblioteca quando uma porta me chamou a atenção. Ela ficava ao fundo do corredor e não era alta e nem de madeira como as outras, era de prata – por que os Volturi tinham uma porta de prata ali?

Aquela porta tão diferente das outras não tinha só o material diferente – estranho -, ela também emanava um cheiro peculiar. Algo muito artificial como cheiro de hospital, mas mais concentrado e forte.

Quando percebi já estava dentro da sala escura. Mesmo com a minha visão bem melhorada de meia vampira eu ainda não conseguia ver tudo com perfeição – como via quando estava em um lugar escuro.

Eu caminhava por entre as enormes prateleiras de alumino. Algumas delas eram cheias de tubos de ensaios enquanto outras continham vidros maiores com coisas estranhas dentro mergulhadas em clorofórmio. Não me aproximei de nada, não queria que ninguém percebesse que estive aqui e com certeza com aquele escuro eu corria o risco de quebrar ou deixar algo fora do lugar.

Ouvi algum tipo de barulho seguido por um grunhido e respirações fortes. Dei alguns passos cegos para trás na intenção de me proteger e acabei batendo em uma pequena mesinha que continha agulhas em cima. Antes mesmo que estas pudessem alcançar o chão as peguei e as coloquei onde estavam. Outro grunhido veio do mesmo lugar que desta vez localizei ser o leste. Me virei na direção do barulho e apertei meus olhos na intenção me melhorar minha visão, mas estava tudo escuro demais para que obtivesse algum tipo de sucesso.

-Ainda não é lua cheia. – ouvi uma voz grossa e arrastada dizer vinda do mesmo lugar dos grunhidos.

A alguns metros de mim eu finalmente pude ver o dono dos barulhos. Ele estava dentro de algum tipo de cela com barras de prata. Havia uma pequenina janela atrás da parede que ele se sentava e ela deixava escarpar míseros raios de sol.

Dei três estudados passos até o garoto que me analisava com o olhar cansado e meio lunático. Ele não se moveu quando me aproximei, continuou com o corpo meio sentado meio caído encostado na parede. Ele usava apenas um short jeans surrado, seus cabelos eram curtos e negros e os olhos – sempre frenéticos tentando me analisar mais do que eu o analisava – negros eram foscos como os de um vampiro que não se alimenta à muito tempo. Mas eu sabia que ele não era um vampiro, não apenas pela cor acobreada da pele como também como o cheiro de cachorro molhado que ele exalava.

- Quem é você? – perguntei cuidadosamente com medo da resposta.

Ele franziu o cenho e me encarou por alguns segundos antes de entender.

- Você nem se quer é uma vampira! O que esta fazendo aqui? – ele perguntou tentando se levantar, mas ele cambaleou e caiu no chão.

Fiz uma careta. Era muita coisa pra explicar e eu não tinha muito tempo.

- Eu nem deveria estar aqui, pra falar a verdade. Acontece que… – ele me interrompeu.

- Você estava doida pra conhecer o tal “filho da lua” e não pode se agüentar, teve que vir dar uma olhadinha – ele falou meio arrogante.

Depois de franzir meu cenho pro tom que ele disse tudo eu finalmente compreendi realmente suas palavras.

-Vo-você é um filho da lua? Um… um verdadeiro filho da lua? – ele assentiu lentamente como se eu fosse algum tipo de deficiente mental – Sério? Um lobisomem? Um lobisomem de verdade?

-Como assim um lobisomem de verdade? É claro que eu sou um lobisomem de verdade. Você por acaso conheceu algum que fosse de mentira? – ele perguntou desta vez meio brincalhão.

Fiz uma careta. Aquela era a primeira conversa que eu realmente tinha me concentrado depois daquela ligação. Era meu primeiro contato com o mundo depois de tanto tempo na inércia e logo nesta primeira conversa a pessoa mesmo sem já conhecer os tranformos já fala neles; consequentemente eu lembrei de quem eu não devia: meu imprinting.

-Não de mentira. Mas… alguns bem parecidos com os lobisomens de verdade. Só tem algumas diferenças. É uma longa história e como estou aqui escondida…

-Não se preocupe, eles só vem aqui nas luas cheias e ainda faltam duas semanas para que ela volte. Dieu merci. – ele falou em francês.

Só então percebi que o garoto tinha um sotaque um pouco forte que eu não conhecia bem.

- De onde você veio?

- Nasci originalmente na França. Depois a Guerra explodiu e fui recrutado para a Rússia para que pudesse defender meu país. Foi lá mesmo que fui transformado em um Filho da Lua. Eles eram um grupo muito grande de Filhos da Lua e estavam se preparando para uma luta contra uns vampiros que tentavam invadir, por isso estavam transformando lobisomens muito rapidamente. Então, algum tempo depois os Volturi me acharam e estão me estudando desde então.

Eu tinha a impressão que havia uma parte da história que ele não havia me contado, mas eu não podia simplesmente sair perguntando.

- E você? De onde veio?

As imagens do Brasil passaram na minha mente e eu quase me perdi em meus pensamentos. Até que um rugido horripilante saiu de algum lugar da sala me fazendo dar um pulo. Meu coração acelerou e me vi dando um passo na direção do lobisomem. O olhei em busca de alguma resposta e percebi que ele olhava na direção do rugido com o olhar cansado como se estivesse acostumado com aquilo.

Estava prestes a perguntar o que diabos tinha sido aquilo quando sua voz cortou minhas intenções.

- Nem me pergunte o que é isso. Os vampiros dizem que é uma criança. Mas é claro que nenhum tipo de criança, por pior que fosse, iria gritar tanto assim. Ela apenas ruge, como um leão faminto preso em um circo onde é mal tratado. – O encarei ainda um pouco assustada. Aquilo estava preso, certo? – Está preso em algum lugar, não se preocupe.

Olhei ao meu redor com minha intuição ainda me avisando para sair daqui. E eu costumava seguir minhas intuições.

-Eu acho que… já esta na hora de eu ir – murmurei dando um passo para trás.

O olhar do lobisomem se tornou frenético e desesperado.

- Não! Por favor! Eu não falo com ninguém a mais tempo do que posso contar. Por favor. Não vá. – Ele implorou novamente tentando levantar-se, mas seu corpo caiu antes mesmo que pudesse ficar da minha altura.

- Voltarei mais tarde. Quando for seguro – me vi falando e quase fui surpreendida.

Quase. Eu sabia que voltaria. Minha curiosidade falava mais alta e minha compaixão também. Eu queria ajudá-lo. E mais que isso, eu queria conhecê-lo. Aquele lobisomem seria minha única ligação com a realidade, e apenas o fato de ele ser um lobisomem já me trazia uma estranha familiaridade com Jacob.

Dei mais alguns passos para trás e já estava quase me virando quando lembrei de perguntar o que tanto queria saber.

- Qual seu nome?

Vi algum tipo de esperança cruzar seu rosto. Aquilo era o mais próximo que nós dois tínhamos de humano, o nosso nome. E além do mais, eu não queria continuar chamando-o de lobisomem, era muito surreal.

-Sou Mathew Goodwin. E o seu, doce senhorita?

Eu não precisei pensar para respondê-lo. Se ele seria minha conexão com os que tanto amava eu sabia muito bem que nome eu lhe informaria.

-Julia Benatti. – Ele deu um pequenino sorriso e eu tentei lhe retribuir, foi estranho, e não me pareceu certo. – Voltarei assim que puder.] – prometi indo contra minha intuição.

Saí da sala e corri em direção aos quartos. Foi mais fácil os achar do que eu estava acostumada e muito mais estranho. Eu conseguia ver tudo. Conseguia ver todas as cores dos corredores e todas as áreas. Não era como eu via tudo antes, mas mesmo assim tudo o que era preto e branco agora começava a ter estranhos tons de vermelho e azul.

Fui direto para a sala de café da manhã e entrei nela meio que bufando. Era estranho respirar novamente. Todos lá dentro olharam para mim surpresos pelo meu estranho comportamento. Eu podia ouvir os barulhos que estava fazendo, como andar, respirar! Eu até podia sentir o cheiro das coisas. Eu podia fazer tudo isso, mas não era do mesmo jeito que antes. Eu ainda sentia aquele enorme buraco dentro de mim e aquela dor constante numa parte do meu cérebro. Mas agora estava tudo um pouco diferente. Talvez fosse apenas o fato de eu ainda estar em choque por ter conhecido um Filho da Lua, e logo passaria. Eu tinha quase certeza que era o choque. Eu tentaria mantê-lo aquecido por quanto tempo conseguisse.

-Bom dia. – Phelipe disse ainda surpreso.

Sentei-me à frente de Paula e ao lado de Jane. Peguei um pedaço de pão e passei manteiga nele. Eu ainda não tinha o luxo de sentir fome, mas eu queria sentir o gosto.

Quando o coloquei na boca foi quase uma desilusão. Eu podia sentir o cheiro e ver as cores, mas eu ainda não tinha direito ao paladar. Talvez o efeito da surpresa estivesse passando.

-Onde você estava? Passei no seu quarto e você não estava lá. – Jane me perguntou.

Ela ainda conversava comigo? Estranho, não me lembrava de conversar com ela depois do avião. Okay, eu não me lembrava de muita coisa depois da ligação mesmo.

- Estava dando uma volta. Achei que seria bom conhecer o resto do… local. – contei uma meia mentira. Eu estava realmente conhecendo o resto do local e o resto das pessoas também.

- Se quiser depois posso te mostrar tudo. – Phelipe sugeriu surpreso. – Já devia ter feito isso, mas você não parecia se… interessar.

Dei de ombros e tomei um pouco do leite que tinha colocado pra mim. Pela primeira vez na manhã olhei para Paula. Ela me encarava com os olhos esbugalhados de tão surpresa que parecia.

- O que foi? – perguntei quando engoli o leite escaldante; outra decepção, eu não sentia nem mesmo a temperatura.

Minha amiga balançou a cabeça parecendo meio tonta e apoiou as costas na cadeira.

-Você parece… – ela foi interrompida por Phelipe.

- Diferente.

- Talvez até… melhor. – Jane disse ainda me encarando.

Olhei para Alec esperando que ele dissesse algo a respeito das minhas atitudes de manhã, mas ele me encarava de um modo diferente de todos os outros. Me encarava com desconfiança.

 

 

***

 

-Você terá aula de Latim e depois… hmmm… Aro quer lhe ver– Phelipe me informou enquanto caminhávamos em direção à biblioteca.

Marcus havia se oferecido para me dar aulas de Latim e Italiano enquanto não arrumávamos um vampiro tão bom quanto ele para fazê-lo. No início eu achei estranho, afinal, Marcus não parecia se importar em respirar, quanto mais em dar aulas para mim.

Perguntei á Alec o que ele achava desta estranha reação. Ele apenas deu de ombros e disse que talvez Marcus estivesse entediado e quisesse me ajudar. “O que há de estranho nisso?” ele perguntou. Não respondi, apenas olhei para a Paula que me olhou com a mesma curiosidade. Bem, pelo menos eu não era a única aqui que achava aquilo estranho.

Eu e Phelipe paramos em frente à sala da biblioteca e ele já estava indo quando pareceu se lembrar de algo.

- Ah! A propósito… eu gostei deste seu novo… jeito. Quase lembra a Julia de antes. – ele disse dando um pequeno sorriso.

- Quase. – reforcei.

- É. Quase. – Ele concordou com o sorriso sumindo de seu rosto de mármore e logo indo para onde quer que fosse.

Dei um longo suspiro e abri a porta da biblioteca.

 

- O que Aro quer comigo? – perguntei enquanto Marcus e eu íamos ao encontro de Aro.

Ele me olhou e eu senti um frio na espinha. Eu tinha um certo medo de Marcus, mas ao mesmo tempo sentia como se pudesse confiar nele. Como um perigo que era preciso correr.

- Acho que ele vai começar o treinamento hoje – ele respondeu com sua voz rouca e distante.

- Treinamento?

- Você não acha que apenas sua força e sua velocidade são melhores, não é?

Fiz uma careta e olhei para frente. Eu achava que aquilo já era o bastante, mas assim como Bella meus pensamentos eram bloqueados, então eu deveria ter sim, algum tipo de poder relacionado com isso. Mas não era algo que eu queria desenvolver. Ser diferente do jeito que eu era já era perigoso demais para a minha própria saúde.

- Bom, nós acreditamos que não seja. E como sua velocidade e sua força só foram desenvolvidas quando você precisou delas imaginamos que com seu poder será a mesma coisa.

- E o que… o que pretendem fazer para que eu “precise” do meu poder? – perguntei com certo medo da resposta.

Marcus olhou para mim vagamente pelo canto do olho e não respondeu. Pensei por um segundo em pressioná-lo, mas ele não parecia o tipo de pessoa que me contaria algo.

Andamos por mais alguns segundos em silêncio e quando pude ver já estava entrando no salão principal com Marcus ao meu lado. Lá estavam a maioria dos vampiros da guarda. Dei falta de Jane, Alec, Phelipe, Felix, Renata – que deveria estar com Aro, já que o mesmo não estava aqui – e Heide. Esta última nunca era boa notícia quando ela saia, sempre voltava cheia de humanos que seriam alimento de todos.

Para a minha surpresa nós não paramos no salão principal e sim seguimos para uma porta no fundo. Eu nunca havia entrado ali.

O local era estranho. Chegamos de um local mais alto com visão para a sala toda. Descemos uma escada em curva que acompanhava a parede. Tudo ali era de pedra e o teto idem. As luzes vinham apenas de várias velas ao longo de tudo.

- Ah! Vocês perderam uma luta emocionante! – Aro disse sorrindo daquele seu jeito estranho, que sempre parecia estar sendo falso. – Phelipe tem melhorado muito suas habilidades. Devo constar, é claro, que isso se deu desde sua chegada, Renesmee.

Ignorei o que Aro dissera e fiquei mais preocupada em ler os rostos das pessoas que ali se encontravam. Não consegui muita coisa, só que todos ali pareciam bastante ansiosos. Cada um de seu modo.

- Parece muito bem, Julia. – Felix falou dando um terrível sorrisinho nojento.

- Renesmee. – O corrigi e olhei para Aro querendo finalizar aquilo o quanto antes. – Me chamou?

Todos já estavam acostumados com meu jeito gélido de falar com todos – com algumas exceções, claro – e ninguém pareceu se importar com a minha pressa.

- Presumo que meu irmão Marcus já lhe informou sobre o nosso objetivo aqui. – Aro disse e eu apenas assenti. – Muitíssimo bem. Dediquei certo tempo para pensar sobre você, minha querida e concluí que como a sua mãe você também deve ter um poder ligado ao seu bloqueio mental.

Eu achei que quando conhecesse Aro fosse levar um bom tempo para entender o que ele dizia mesmo que fosse em português, mas isso não o aconteceu. Eu tinha algumas teorias sobre isso:

A)    Eu estava ficando mais inteligente.

B)     A transformação tinha feito meu cérebro trabalhar como o de um vampiro normal, se não mais rápido.

C)     Era o perigo. Meu subconsciente sabia que eu estava em perigo e por isso trabalhava mais rápido tentando entender tudo o mais depressa possível para que eu logo saísse da situação.

Eu acreditava fielmente na opção C, mas mesmo assim eu queria que meu subconsciente não acreditasse que eu estava em situação de perigo, porque eu não queria viver sempre em alerta já que isso estava tirando meu sono e me deixando extremamente cansada. Sim, eu queria acreditar que era o perigo que me mantinha acordada de noite e não a falta que meu imprinting fazia.

- E…? – perguntei esperando que ele continuasse suas conclusões para quanto meu poder.

- E… bem, se você tem um poder não podemos deixá-lo para lá, não é mesmo? Afinal, você é uma de nó. – ele disse dando um largo sorriso no final da frase.

Eu não sou uma de vocês, tive vontade de rosnar as palavras que tanto queriam sair. Mas eu sabia que eu estava ali como uma deles – por mais que me doesse – e tinha que aceitar este tipo de coisa.

Engoli em seco as palavras que escorregavam pela minha garganta e respirei fundo.

- Marcus me disse que pretendem fazer meu poder se revelar do mesmo jeito que minha força e minha velocidade se revelaram. Mas explique-me, Aro, como diabos farão isso?

Vi o sorriso de Aro torna-se maior, quase maléfico e minha boca secou com o desespero. Meu Deus, o que eles fariam comigo?

- Pense bem, Renesmee, querida, como trabalharam o poder de sua mãe?

Senti meu olho arregalar e não tive coragem de perguntar.

- Vejo que entendeu. Muito bem, tragam-na. – Aro disse a alguém.

Logo depois ouvi o barulho da porta por onde tinha vindo e depois passos humanos.

Paula veio descendo a escada com o medo estampado no seu rosto. Atrás dela Demetri vinha com cara de tédio. Eles pararam ao lado de Alec que pegou a mão de Paula olhando-a com o olhar meio atormentado.

- Não se preocupe, vai ficar tudo bem – ele murmurou em seu ouvido.

- Não vai usar minha amiga – falei cruzando os braços para Aro.

- Ah! Vai sim. – Caius disse chegando ao lado de Aro – E o único jeito de impedir que ela não seja atingida é usando seu poder.

Olhei desesperadamente para Alec que trazia Paula para perto de mim e logo depois meu olhar foi para Phelipe num pedido silencioso de ajuda. Ele apenas olhou para o chão sem ter coragem de me encarar.

Alec se posicionou à nossa frente e colocou as mãos nos bolsos.

- Vou usar meu poder nela e você vai tentar impedir.

- Mas o quê? Eu não sei o que fazer! Como vou impedir?

-Claro que sabe, você leu no livro e tenho certeza que Bella conta direitinho como se faz. – Caius cuspiu.

- Apenas concentre-se e tente usar seu poder em Paula também. – Alec disse calmamente. – Eu não vou machucá-la, Julia, só a deixarei longe do mundo por alguns segundos.

Eu podia ouvir o coração de Paula pular em seu peito e logo consegui ver um tipo de fumaça negra indo na direção dela e a envolvendo como neblina.

A boca de minha amiga abriu um pouco como se estivesse numa sessão de relaxamento, mas seu coração não desacelerou. Suas mãos se fecharam em punho como se tentasse controlar sua respiração. Aquilo não estava sendo nada legal para ela.

Fechei meus olhos afim de me concentrar e tentei achar qualquer tipo de elástico mental escondido em alguma parte da minha mente como Bella dissera, mas não achei nada. E quanto mais eu explorava minha mente mais a dor aumentava, mais eu achava a dor de Jacob em minha mente.

Passou-se algum tempo até que ouvi alguém bufando.

- Eu sabia que isso não daria certo. Ela nem se quer esta preocupada com a amiga dela. – Felix disse.

Abri meus olhos e o mirei, estava pronta para mandar-lhe naquele lugar quando fui interrompida.

- Talvez deva deixar-me tentar. – Jane sugeriu num sussurro, como se estivesse incerta do que ela mesma sugeriu.

- Não! – Eu e Alec falamos em uníssono.

Vi Paula abrir os olhos e percebi que Alec já não estava mais agindo com seu poder nela.

- Alec, vamos tentar de novo. Eu sei que posso conseguir. – falei em tom autoritário.

-Pensando bem… eu acho que seria de bom proveito que Jane nos ajudasse. – Aro falou colocando a mão no queixo como se estivesse pensativo.

- Já disse que não – rosnei.

-Ainda não entendeu, garota? Você não tem muita autoridade aqui. – Caius disse perdendo a paciência. – Jane, sua vez. Aproveite.

Olhei para Paula e ela fitava Caius em total desespero enquanto Alec a encarava visivelmente preocupado e tentando achar alguma solução para aquilo.

- Como quiser, mestre. – Jane falou chegando ao lado do irmão.

Eu sabia que ela não iria se quer olhar para mim nem para Alec depois disso. Aquilo era covardia! Paula não tinha feito nada a ela.

Então eu percebi. Sim, Paula tinha a atingido onde mais doía. Seu ponto fraco: Alec.

Vi o olhar de Jane mudar de Caius para Paula e então tudo aconteceu muito rápido.

Empurrei minha amiga tentando a proteger e fitei Jane com meu pior olhar de ódio, eu queria que ela sentisse como é beber seu próprio veneno.

Milésimos de segundos depois ela estava no chão se debatendo e eu ouvi seu grito cortar a sala.

Vi Alec ajoelhar-se ao lado da irmã segurando seus braços para que ela parasse de quebrar o chão. Ele olhou para mim desesperado.

-Pare! Pare Julia! Está a machucando! – ele gritou em desespero.

Uma voz muito distante falou que eu realmente tinha que parar com aquilo, que eu era a responsável por Jane estar caída no chão. Mas eu não conseguia escutar aquela voz, não conseguia parar de encarar Jane, não conseguia parar de desejar que ela ficasse mal, que ela sofresse o que sempre fez os outros sofrerem, o que iria fazer minha amiga sofrer.

Como ela se atrevia? Como ela se atrevia desejar algum tipo de mal para Paula? Logo Paula? Só por que seu irmão estava afim da minha amiga? Isso não era motivo suficiente.

Julia, você tem que parar!

Agora a voz que estava baixa pareceu gritar e ela me atingiu em cheio. Aquela não era a minha própria voz, era mais rouca e mais grave.

Meus olhos se fecharam e eu os apertei na procura daquela voz. Eu a queria de novo, tão perto, tão certa.

Os gritos pararam, dando lugar à um gemido estranho, eu conhecia aquele gemido de dor e não era de nenhum dos vampiros ali presentes.

Abri os olhos instantaneamente e rodei meu olhar à procura de Paula. Ela estava no chão e Alec já estava ao seu lado preocupado e sem saber o que fazer. Phelipe logo se uniu a eles e eu fiz o mesmo sem entender direito o que estava acontecendo.

- O que houve, Paula? O que houve? – perguntei em desespero já que ela não parava de gemer.

Ela estaria gritando se pudesse, mas seus dentes estavam cerrados impedindo que ela o fizesse. Minha amiga olhava para seu tornozelo e logo lágrimas começaram a sair dos seus olhos.

O que tinha acontecido? Eu só me lembrava de tê-la empurrado para que ela não fosse atingida pelo poder de Jane e… Oh!

- Eu te machuquei? Oh Meu Deus! Paula! O que eu fiz? O que aconteceu? – comecei a bombardear de perguntas que eu sabia que não ganharia resposta, e afinal, eu tinha medo delas.

-Aaaah! Tá doendo! – minha amiga urrou para Phelipe tinha colocado a mão em seu tornozelo.

-Só vou encostar de leve para ver se quebrou. – Ele avisou calmamente.

Paula assentiu e mais lágrimas saíram de seus olhos. Eu continuava me bombardeando de perguntas mentalmente sem saber como reagir apenas tentando absorver todas aquelas informações.

Phelipe colocou a mão sobre o tornozelo dela e ela fungou parecendo se acalmar, devia ser o efeito anestesiante da mão gélida dele. Todos esperamos em silêncio enquanto Phelipe mexia no tornozelo de Paula analisando-o.

-Não está quebrado, mas acho que a torção foi um pouco forte demais. É melhor levá-la a um hospital. – ele explicou olhando para Aro que nos analisava como se não se importasse muito.

O olhar de Aro veio para mim e eu o encarei deixando bem claro que eu era necessário ele mandar minha amiga pro hospital. Ele assentiu uma vez.

- Certo. Chamem Joshua e Mirela para levarem-na ao hospital. – Aro falou com o tom de voz mais tedioso do que ele costumava usar.

Eu não conhecia Joshua, mas imaginei que ele era um dos guardiões humanos que os Volturi tinham. Eles eram humanos, mas eram… diferentes. Para nós, que sabíamos que eles existiam podíamos facilmente identificá-los no meio de humanos comuns. Eram sempre muito altos e muito musculosos, eram criados, desde bebês para serem guardiões.

Estes guardiões só faziam coisas que os vampiros não poderiam realizar. Ir ao hospital, andar sob o sol e servir de refeição caso um vampiro da guarda precisasse. Este último ítem era o motivo deles não terem uma vida muito longa. Sua vida era totalmente dedicada à servidão dos vampiros, eles não tinham nenhum tipo de contato mais próximo com os humanos que viviam fora da guarda.

Phelipe havia me explicado isso uma vez logo depois que chegamos do Brasil.

Um humano alto e forte entrou na sala, imaginei ser Joshua. Junto com ele a conhecida e pequenina Mirela nos olhou como se já estivesse acostumada com aquilo.

- Nos chamou, mestre? –Mirela perguntou, sempre cordial.

- Sim, minha querida. Parece-me que Paula torceu seu tornozelo. Vocês irão acompanhá-la ao hospital. –Aro falou parecendo realmente duvidoso se realmente iria fazer isso. – E trazê-la, imediatamente de volta assim que for lhe dado a alta. Entenderam? Não quero que ela tenha nenhum tipo de contato com qualquer humano no estabelecimento.

Ambos assentiram uma vez e Joshua andou até onde estávamos.

Paula olhou para mim com o olhar meio que com medo e depois seu olhar foi para Alec que soltou um suspiro cansado.

- Mestre. – Alec chamou Aro que o olhou com curiosidade. – Gostaria que o senhor me concedesse permissão para acompanhar Paula.

- No hospital? – Aro pareceu surpreso.

- É. Não se preocupe com meu comportamento mestre, não causarei nenhum tipo de desconfiança nos humanos.

- Certo. Agora podem ir. – Aro falou visivelmente cansado de tudo aquilo.

Alec pegou Paula – que eu percebi que iria derreter – no colo e eles foram andando em direção à escada. Eu cogitei por um segundo ir com eles, mas logo me lembrei que hospital tinha sangue, sangue humano. É, Paula ficaria bem com Alec.

Assim que eles desapareceram da sala eu me levantei – havia estado no chão todo este tempo sem perceber – e meu olhar foi para Jane. Ela não havia se levantado, parecia assustada e surpresa demais para isso, seus olhos ainda miravam o local onde Paula tinha caído.

-Jane… – murmurei e seu olhar veio para mim, parecia louco e assustado.

Nos encaramos por uns segundos sem dizer nada, então ela levantou meio cambaleando e saiu correndo dali.

Eu já estava pronta para ir atrás dela quando um braço muito gelado encostou no meu me detendo.

- Ela precisa ficar sozinha. – Phelipe falou encarando por onde Jane havia saído.

- Mas… e se… – não consegui concluir a frase.

A verdade é que eu tinha medo do que Jane iria fazer. E se ela fosse atrás de Paula? Alec seria capaz de proteger minha amiga da sua própria irmã?

- Ela não vai atrás deles. – Phelipe falou parecendo ler meus pensamentos. – Ela provavelmente vai para o local aonde sempre vai quando fica muito atordoada.

Já ia abrir a boca para perguntar onde era isso quando alguém me interrompeu.

- Acho que já pode ir para o seu quarto, Renesmee. – Marcus disse autoritário e percebi que nem Aro nem Caius estavam mais na sala. – Continuaremos o treinamento assim que possível. Você ficará boa em controlar seu poder logo.

Apenas assenti e agradeci mentalmente. Eu me sentia muito cansada, como se tivesse nadado o Atlântico inteiro sem descansar. Phelipe se ofereceu para me acompanhar, mas eu lhe disse que, como Jane, eu também precisava passar um tempo sozinha e pedi para que ele me avisasse assim que Paula retornasse do hospital.

Saí o mais rápido que pude – sem usar minha super velocidade por causa do enorme cansaço – dali e me dirigi à área dos quartos.

Enquanto andava pelos corredores agora um pouco reconhecíveis eu pude ver as cores desaparecendo lentamente de novo. Eu sabia que elas não iriam durar muito mesmo.

Antes de virar para o corredor que seguia para os quartos eu resolvi seguir reto. Não estava indo mais para meu quarto.

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