Thunderstorm II – Capítulo 27

22 01 2012

27 – Promessas 

“Nossa digital não se apaga da vida que tocamos.” –  Lembranças

Antes de entrar eu olhei algumas vezes para trás para ter certeza que ninguém me seguia. Eu sabia que não devia estar ali. Que, apesar de ter dito à ele, eu não devia voltar. E eu até considerei seguir o que minha intuição dizia, mas eu estava precisando muito de um amigo para ouvir minha estúpida intuição.

Andei pelos mesmos lugares que havia ido antes e cheguei à cela de Mathew sem nenhuma dificuldade. Ele estava com os olhos fechados e uma expressão de dor no rosto.

-Mathew? – murmurei sem ter certeza se ele me ouviria. – Mathew, está dormindo?

-Eu poderia jurar que nunca mais a veria. – Ele disse abrindo os olhos e ignorando minha pergunta. – É o que deveria ter feito. Você sabe, não é? Não devia estar aqui.

Eu não sabia o que dizer. Ele sabia! Ele sabia quem eu era! Ele ia contar à todos que eu estava aqui!

-Co-como sabe? – guaguejei finalmente obrigando meus pulmões a soltarem algum tipo de som.

Ele deu um pequeno sorriso vencedor. Seus dentes eram brilhantes e brancos e com a sua pele morena eu podia vê-los mais claramente. Seu sorriso era puro e brincalhão, mas também parecia errado em seu rosto, por causa de seus olhos escuros tristes.

- Você não é da guarda. Não é uma vampira, muito menos uma humana. E além do mais, você parece tão aterrorizada que deve estar se perguntando porque voltou.

- Eu sei exatamente porque voltei – disse séria e Mathew imitou minha expressão. – Vim porque estou aqui como você. Sou uma prisioneira como você e…

Ele franziu o cenho confuso.

-Você? Prisioneira? Com estas roupas? – ele falou me interrompendo.

- Mathew, você me perguntou de onde eu vim. Talvez seja hora de te contar o que eu realmente sou – falei entendendo que ele só compreenderia o quão eu precisava dele se eu contasse o que tinha acontecido comigo e por tudo o que passei.

Então eu comecei a contar minha história. Eu sentia como se tivesse tirando um peso das minhas costas. Por algum motivo eu sabia que Mathew tinha que saber da minha história, eu sentia que ele era uma espécie de lembrança do meu passado. Paula costumava ser este laço com a minha antiga vida, mas isso havia mudado de uns tempos para cá desde que ela começou a conviver tanto com vampiros. Depois de tanto conviver com vampiros eu podia perceber que seu comportamento começava a mudar, no início foram pequenas coisas como a fala mais correta e agora até mesmo seus sentidos estavam um pouco mais rápidos. E eu também sabia que não demoraria muito para que Aro estivesse cansado de ter uma humana por perto e por causa de mim e – agora- de Alec ele mandaria que ela fosse transformada. Tremi ao imaginar minha doce e destrutível amiga imortal com olhos vermelhos.

Percebi que Mathew estava calado, parecendo longe e pensativo. É, talvez eu tivesse uma bela história – ou ela fosse muito assustadora.

- Quer dizer que você esta aqui obrigada, mas sua alma gêmea… como você chama isso mesmo? – ele concluiu com a voz meio rouca.

- Imprinting – respondi ainda esperando que ele concluísse o resto.

- Isso. Então você teve que abandonar seu imprinting, que é um tranfigurador, para que assim ninguém se machucasse? – Assenti e ele continuou ainda meio surpreso. – Os Volturi te querem por causa do seu incrível poder que você ainda não sabe bem o que é, mas segundo o que sua família lhe disse é bem forte. E você é uma… – ele pareceu pensar e depois franziu o cenho parecendo mais confuso – uma híbrida.

- Sim, uma meio humana meio vampira.

- Há outros de você?

- Na verdade há sim. Mas não como eu. Digo, eles também são híbridos, mas eles são bem diferentes de mim. Normalmente eles são mais lentos e menos fortes que os vampiros e o crescimento deles é muito acelerado. Eu sou mais forte e mais rápida que um vampiro e meu crescimento foi como o de um humano comum.

- Certo. E quanto ao… sangue?

Aquela queimação subiu pela minha garganta novamente me provocando uma sede insaciável que eu infelizmente sabia pelo o que era. Isso estava acontecendo sempre que eu comia alguma comida humana ou pensava em sangue. Eu tentava não pensar no que aconteceria comigo caso eu ficasse muito tempo sem sangue.

- Eu preciso. Mas não tanto quanto um vampiro. E além do mais, eu só me alimento do sangue de animais.

- Por que? Você não pode com sangue humano? – Mathew perguntou estranhando minha atitude.

Neguei com a cabeça e passei a mão pelo meu longo vestido azul escuro que caia pelo chão já que eu estava sentada.

-Não é isso. Eu apenas não quero… tirar a vida de alguém. – murmurei sem ter certeza que ele ouviria.

Ficamos em silêncio por algum tempo até que ele o quebrou, sua voz mais rouca ainda.

- Sabe, quando você se transforma em um lobisomem você se lembra de tudo, é mentira aquela lenda que ao se transformar você não lembra de nada da sua vida humana. Eu me lembro, de tudo, cada pequeno detalhe. Mas eu não consigo controlar… é como se eu tivesse que matar, não importa quem esteja na minha frente.

Engoli em seco tentando me lembrar de como eram os lobisomens, eu não consegui muita coisa, cada filme os lobisomens eram de um jeito. Cada um mais estranho e assustador que o outro. E eu sabia que eles eram, sim, assassinos sem qualquer tipo de emoção.

Então uma lembrança muito forte invadiu minha mente.

 

- Droga, Seth, tire Daniela daqui.

Seth empurrou Daniela para o banheiro e o incrível cheiro desapareceu.

Eu sabia de quem era o cheiro, era de Daniela. Levantei-me da cama e andei lentamente até o banheiro. O gosto dos meus dentes agora clamavam por mais daquele cheiro. Eu rodei a maçaneta e tentei abrir a porta, mas estava trancada. Podia ouvir o choro de Daniela do lado de dentro.

-Daniela! Abra a porta! – gritei.

Eu senti alguém me puxando para trás. O corpo todo de Seth tremia ao meu lado, mas não era ele que havia me puxado para trás.

- Me solte, Jacob!- eu berrava me debatia contra seu corpo.

Fechei meus olhos fortemente sentindo o vemeno se espalhar pela minha boca assim que pensei na mão cortada de Daniela.

-Julia? Você está bem? – Mathew me chamou chegando mais perto da cela que nos separava.

Me levantei meio cambaleante e me apoiei na parede tentando fazer o ar entrar pelas minhas narinas, mas ele não era puro, não como eu precisava.

-Tenho que ir. – sussurrei e saí correndo da sala sem olhar exatamente para onde ia.

Minha cama era mais macia do que eu lembrava. Ela empurrou meu corpo para cima assim que me joguei nela e eu bati com força novamente no colchão. As lágrimas estavam queimando meus olhos pedindo que eu as deixasse sair, mas eu não permiti.

Eu começava a sentir um grande buraco começar a me partir ao meio e aquilo doía profundamente. Comecei a lembrar dos momentos felizes que tive com meus amigos – os humanos e os de La Push – e depois os momentos com as minhas duas famílias. Foram tantas brigas, tantos erros, para quê? Para quê se no final eu terminaria sem nada e ainda mais profundamente ferida do que eles jamais me machucaram.

Eu queria minha família de volta, eu queria meus amigos de volta!

As imagens foram se formando à minha frente como num filme e eu ria e chorava junto com tudo aquilo. Eu ria de cada estupidez que já cometi e chorava de saudade de cada abraço, cada beijo que um dia alguém me deu.

Eu nunca havia estado tão sozinha, tão abandonada como naquele momento. Eu sabia que não havia ninguém para que eu pudesse contar pelo o que eu estava passando e aquilo me massacrava.

Foi uma risada conhecida que me tirou dos meus pensamentos e me fez limpar minhas bochechas molhadas de lágrimas. Me sentei na cama e corri até a porta. Paula poderia não saber o que estava acontecendo comigo, mas eu queria apenas um abraço e um silêncio, eu sabia que isso ela poderia me dar.

Então abri a porta, mas não saí para o corredor ficando ali escondida observando os dois.

Paula estava apoiada na parede com o pé em uma bota de pano, como aquelas para quem quebra o pé, e Alec estava ao seu lado rindo e abrindo a porta para ela. Então ele ficou de frente para a minha amiga e os dois pararam de rir imediatamente se aproximando. Vi o lábio de ambos se encostarem e os músculos de Alec se contraindo, aquilo não devia ser muito fácil para ele.

- O que é isso? – ouvi alguém quase gritar e reconheci a voz.

- Jane! – Alec falou surpreso se afastando de Paula, mas ficando à sua frente como se para protegê-la de sua irmã.

Eu não sabia se deveria sair e fazer algo ou apenas ficar ali. Optei por ficar ali. O assunto era entre os três.

- O que é isso? – Jane gritou novamente. – Eu não acredito, Alec! O que você fez? Como pôde?

- Jane, vamos para outro lugar acho que tem algumas coisas que eu devo te explicar e… – ele foi cortado pela irmã.

- Eu vou te matar, sua humana filha de uma… – eu não permiti que Jane continuasse e saí de trás da porta entrando na frente de Alec.

Todos me encararam surpresos e pararam se mexer no mesmo instante.

- Acho que isso já é o bastante, Jane.

Seus olhos se estreitaram e ouvi um rosnado saindo do seu peito.

-Quem você pensa que é para me dizer quando parar?

Cruzei meus braços e reprimi o instinto de pular em seu pescoço. Atrás de mim o coração de Paula pulsava acelerado.

- Jane! – Alec chamou sua atenção como se ela fosse uma criança de três anos, não uma vampira com séculos de existência.

-Quem eu acho que sou? – perguntei, o veneno que antes enchia a minha boca pro causa do sangue que eu ansiava agora vinha com mais intensidade por causa da raiva. – Eu sou a única garota que conversou com você em todos estes séculos!

- Isso não é verdade. – ela murmurou.

- Jane, você sabe que é… – Alec disse – ela é a única que se atreveu a conversar com você desde… tudo.

- Cale a boca! – ela gritou agora com a voz meio chorosa, mas eu sabia que dali não iriam sair lágrimas – Eu tinha alguém pra conversar sim, Alec. Com meu irmão! Será que ele ainda está aí em algum lugar ou será que esta humanazinha o levou embora?

- Jane não diga isso… – Alec murmurou e eu pude ver que ele não queria brigar com a sua irmã.

Eu e Paula nos encaramos e pude ver que ela estava se acalmando conforme aquilo deixava de ser uma briga e começava a ser uma “DR” familiar.

- O que quer que eu diga? Era pra você estar junto comigo, como sempre foi! Não era pra eu precisar de amiga alguma.

O olhar de Alec caiu e ele parecia reunir forças para continuar aquela conversa. Eu sabia que aquilo não deveria estar sendo muito legal pra ele, mas era preciso. A irmã dele precisava de limites e era hora de impô-los.

- Não é mais como sempre foi e nunca mais será.

Meu queixo caiu e o de Paula fez o mesmo. Alec acenou com a cabeça para minha amiga e eles logo desapareceram dali. Não me atrevi olhar para Jane, ela provavelmente estava com raiva e eu não queria brigar com ela. Minha mente ainda estava cansada e eu não queria usar meu poder – o qual eu ainda não sabia ao certo qual era.

Me virei para a porta do quarto e enquanto a abria ouvi um soluço. Devo confessar que pensei duas vezes antes de me virar. Mas eu o fiz.

Dei meia volta e a cena que eu vi ali jamais poderia ser tirada da minha mente. Jane estava no chão, encostada na parede soluçando. Dos seus grandes olhos vermelhos saiam grossas lágrimas de sangue escarlate.

Jane relutou um pouco quando fui levá-la ao meu quarto, mas percebeu que eu era mais forte que ela e que eu seria a única a ajudá-la, então ela simplesmente cedeu.

Coloquei-a sentada na cama e corri até o banheiro. Lá molhei uma das toalhas branquíssimas e voltei ao quarto. Jane estava deitada na cama com os olhos olhando para lugar algum. Coloquei sua cabeça em meu colo e ela soltou um soluço seguido de outra lágrima.

Comecei a limpar seu rosto cuidadosamente, a toalha assumindo um tom avermelhado conforme o sangue ia sendo limpado do rosto de Jane. O sangue não tinha cheiro de sangue animal, o cheiro era de ferrugem e sal. Como o cheiro que o mesmo possuía antes de eu completar quinze anos.

- Lyka e Demetri estavam certos. – Jane falou soltando um soluço que doeu até em mim.

Eu nunca havia visto Lyka e o que sabia a seu respeito era pouco. Eu sabia que ela era a parceira de Demetri e que ela simplesmente odiava a raça humana. Para ela os humanos só faziam duas coisas: alimentar os vampiros e destruir seu próprio planeta. Sabia também que ninguém, nenhum vampiro, se atrevia mexer com ela.

Não me atrevi a perguntar o motivo de Demetri e Lyka estarem certos, mas Jane respondeu mesmo assim.

- Eles me disseram que logo esta humaninha iria içar meu irmão com sua aura e ele nunca mais seria meu. Que a partir do momento que ela lançasse sua… humanidade sobre ele, Alec estaria perdido.

-Alec nunca foi seu, Jane. – murmurei prestes a limpar outra gota de sangue que saia de seus olhos.

Jane sentou-se na cama e começou a assentir freneticamente.

- Sim, ele era meu sim. E eu era dele. Sempre foi assim, sempre pertencemos um ao outro. – Eu neguei lentamente com a cabeça e ela apenas me ignorou. – Sabia que quando éramos mais novos, quero dizer, quando éramos humanos, nós prometemos que nunca iríamos nos separar? Foi sim. Um pacto. Com sangue e tudo. Eu lembro como se fosse ontem, apesar das minhas memórias humanas estarem se perdendo com o tempo, eu me lembro disso com perfeição.

‘Estávamos no sótão de casa escondidos. Já havíamos sido descobertos e não era mais seguro sair de casa, nem na janela nós podíamos ir. Então nós subíamos para o sótão e ficávamos lá, conversando ou brincando de alguma brincadeira de tabuleiro. Eu gostava de jogar dama, mas Alec preferia jogar xadrez.’

Ela soltou uma risada nasalada e uma lágrima saiu dos seus olhos desta vez escorrendo direto para seu pescoço e fazendo uma linha contínua de sangue.

-Mas naquele dia, nós não estávamos brincando, nem conversando. Estávamos em silêncio. Eu tremia de frio e de medo. Então Alec me abraçou e sussurrou dizendo que eu não precisava ter medo, que eles nunca nos achariam ali. Que Marie – nossa irmã – mentiria para os guardas que não estávamos mais ali, que tudo ficaria bem e que assim que amanhecesse nós iríamos para a nova terra, onde não seríamos perseguidos e ninguém nos chamaria de bruxos e filhos do inferno.’

‘Eu disse a Alec que eu acreditava nele, mas que ainda sim tinha medo. Ele então pegou uma adaga que ele sempre trazia junto ao cinto – era um presente que nosso pai havia nos deixado antes de morrer – e cortou a palma da sua mão.’

‘Eu juro que vou te proteger e que nada, nem ninguém vai nos separar jamais, ele disse me encarando nos olhos. Sabe, ele tinha os olhos azuis escuros mais belos do mundo. E então pegou a adaga e me entregou. Eu a encarei por algum tempo e então ouvimos um baque no andar debaixo seguido de um grito. Logo depois passos pesados e mais gritos. Eu vi que Alec também estava com medo e então peguei a adaga e cortei minha mão. Foi quando alguém abriu a portinha do sótão e vimos que era um soldado. Ele andou em passos pesados e pegou o pé do meu irmão o puxando. Eu então uni nossas mãos e eu pude sentir nosso sangue se misturando.’

Os olhos de Jane estavam vagos como se ela não estivesse mais no quarto muito menos no século vinte e um. Ela estava na temporada de caça às bruxas num sótão. E eu estava lá, junto com ela.

- Depois disso eu só vi meu irmão na fogueira quando já estávamos amarrados ao tronco no meio da praça principal.

Eu conhecia aquela história. Jane e Alec foram realmente caçados na época das caças às bruxas, eles realmente tinham sido condenados e realmente tinham sido salvos pelos Volturi.

Abracei Jane e ela retribuiu dando mais um soluço. Nós ficamos assim, em silêncio, ela chorava suas lágrimas e eu perdida em meus próprios pensamentos. Foi em algum ponto de pensar e ouvir Jane chorar que eu dormi.

Eu não tinha muita certeza se aquilo era um pesadelo ou não. Estava sozinha em um local escuro e com cheiro de mofo e poeira. Foi incrível como aquele cheiro não me fez espirrar, eu costumava ser alérgica a pó. Eu estava sentada e com uma pequena vela na minha mão. Me levantei tomando cuidado para não fazer barulho, mas um pedaço do meu vestido agarrou na madeira do chão e eu caí, a vela se apagou. No mesmo instante que a vela apagou eu pude ver que na verdade ela não fazia muita importância, eu conseguia ver quase tudo ali por causa da luz da lua que adentrava pelo telhado. Olhei ao meu redor e percebi estar em uma espécie de sótão. Me levantei novamente desta vez meu vestido não prendeu. Dei alguns passos e fiquei surpresa quando meu sapato não fez barulho algum. Então ouvi sussurros:

- O que está fazendo? – uma voz feminina estranhamente familiar perguntou.

Segui as vozes e, para a minha surpresa, vi os dois que conversavam. Alec e Jane. Eu estava na cena que Jane tinha me contado, sobre o pacto.

-Eu juro que vou te proteger, não importa o que aconteça. – Alec falou cortando sua mão.

Então eu pisquei meus olhos e todo o cenário mudou.

Eu estava em um… casamento. Percebi que estava novamente sentada, sobre o meu vestido rosa bebê tinha uma bela caixa branca com um laço azul anil. Um presente para os noivos, talvez. Abri a caixa, curiosa, e lá dentro havia um belo colar, um cordão grosso de ouro pendia uma pedra de diamante bem grande. Eu reconhecia aquela pedra, era tão familiar, mas eu nunca a tinha visto.

Inconscientemente meus olhos foram para o casamento que acontecia. Senti a surpresa me inundar quando vi quem estava ao altar.

-Isabella Marie Swan, você aceita Edward Anthony Masen Cullen como seu legítimo esposo, para amar e respeitar, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza até que ambos estiverem vivos? – ouvi o pastor perguntando à minha mãe.

-Sim. – ela falou, mas sua voz não foi mais que um sussurro por causa das lágrimas.

Era estranho ver Bella humana agora que eu sabia que ela era a minha mãe. Ela ainda parecia muito com a Bella super azarada do livro, e não com a mãe cuidadosa que fora comigo.

- Edward Anthony Masen Cullen, você aceita Isabella Marie Swan como sua legítima esposa, para amar e respeitar, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, até que ambos estiverem vivos?

Eu não ouvi Edward respondendo, apesar de saber qual seria a resposta. O cenário mudou novamente com um estalo me fazendo fica tonta.

Desta vez eu estava em cima de uma árvore, olhei ao redor e a visão que eu tinha era linda. A árvore que eu estava sobre estava no topo de uma montanha e dali eu podia ver uma pequenina cidade iluminada pelo sol alaranjado do crepúsculo.

Ouvi alguém conversando a alguns metros de mim, no chão e me concentrei. Um casal estava se abraçando. A menina estava de costas para o rapaz, ambos observando a vista.

-Quanto tempo você acha que vai durar? Esta paz toda? – a garota perguntou, sua voz era familiar demais.

- Não sei. Eu só sei que desta vez vamos estar juntos, não importa o que aconteça. – garoto respondeu, a voz dele era ainda mais familiar, mas por algum motivo eu não conseguia me lembrar de onde.

Então a garota se virou para ficar de frente para o garoto e eu pude ver seu rosto – apesar do menino ser bem mais alto que ela e tampá-la quase toda – o choque quase me fez cair do galho que eu estava sentada.

A garota era eu.

- Promete? – a menina/eu perguntou, seus/meus olhos brilhando radiantes.

O garoto beijou a garota/eu por uns segundos e então ele deve ter sorrido, pois os olhos da menina/eu brilharam mais ainda.

-Prometo.

Sentei-me arfando na cama e minha cabeça rodou. Olhei ao meu redor enquanto meu coração voltava ao normal. Eu estava sozinha no quarto e ele estava totalmente escuro, sem nenhum tipo de luz saindo por de baixo da porta. Olhei o pequeno relógio que tinha aparecido do lado da minha cama um dia depois de eu ter chego aqui. Eram quatro horas da manhã. Deixei meu corpo cair na cama e comecei a pensar no sonho. Eu nunca tinha tido um igual, isso era boa notícia, eu já estava começando a achar que estava ficando doida, já que meu subconsciente só pensava em um tipo de sonho. Pelo visto ele ainda tinha algum tipo de criatividade.

Tentei ligar os sonhos, já que eles tinham vindo como se fossem parte de um só sonho, mas dividido em partes. Certo, o primeiro eu já sabia o que era: Jane e Alec, um prometendo ao outro que ficariam juntos para sempre. O outro era Edward e Bella casando. O que seria o casamento? Um juramento de… uma promessa de eternidade juntos.  E eu com Jake? Este foi o mais estranho de todos, já que foi uma lembrança e não só minha imaginação. Mas ele também tinha sido uma promessa. Senti um arrepio percorrer minha espinha. Eu costumava cumprir minhas promessas.

Levantei-me sem pensar duas vezes e peguei um manto cinza escuro que estava sobre a poltrona e saí do quarto. Bati duas vezes no quarto de Paula e esperei por alguma resposta, talvez ela estivesse dormindo… com o coração rápido demais para alguém que se encontra inconsciente.

- Entre. – ouvi minha amiga falando baixo.

Abri a porta e entrei fechando-a atrás de mim.

- Ei. – disse me sentando em sua cama macia.

Paula estava deitada com a perna que tinha uma botinha azul sobre a almofada. Ela me encarou com um biquinho de poucos amigos e cruzou os braços.

- Te acordei? – perguntei mordendo o lábio.

- Não, não consigo dormir! Eles me fazem dormir muito cedo aqui, não é o que eu estou acostumada, então estou sempre perdendo o sono antes que amanheça. – Ela reclamou sem desfazer o biquinho.

Não pude deixar de soltar uma risada e suspirei logo em seguida.

- Tirando isso… e isso… – falei apontando com a cabeça para sua perna imobilizada – como você está?

Pude ver que ela relaxou a postura, provavelmente surpresa com a minha pergunta.

- Vou indo. Aqui tem até seus pontos bons – ela deu um meio sorriso, e eu já soube a quem ela se referia e então seu sorriso desfez -, mas Jú… eu não gosto daqui. Estes vampiros, exceto alguns, é claro, parecem loucos – ela agora murmurou parecendo receosa.

Soltei um outro suspiro e peguei sua mão, instantaneamente minha boca secou. Eu podia sentir seu sangue passando por suas veias ali. Soltei sua mão imediatamente e sutilmente afastei-me da minha amiga.

-Vou te tirar daqui assim que conseguir bolar um plano, prometo – falei meio que prendendo a respiração, desde quando o cheiro de Paula havia se tornado algo tão chamativo?

- Tá, disso eu sei. – ela falou meio que brava e eu me surpreendi. – Mas não é isso que me preocupa! Não é comigo que eu estou preocupada, Julia, é com você! Você mal come desde que chegamos aqui, mal dorme e não venha negar que nada disso é verdade porque eu sei. Você está emagrecendo, e quanto a estas olheiras? Eu sei que tá tudo muito difícil pra você, que é muita pressão, mas… você não pode me proteger quando mal consegue proteger à si mesma! Como vamos sair daqui se daqui a algum tempo você mal vai conseguir andar?

- Eu nunca disse que iria sair daqui… – sussurrei sem saber o que dizer.

A boca de Paula ficou em forma de “O” enquanto ela entendia o que eu tinha acabado de dizer.

- Ah… o quê? – ela bufou soltando todo o ar.

- Te tirar daqui é algo que podemos considerar, mas… Paula, você acha mesmo, que depois de todos estes anos, os Volturi simplesmente me libertariam pra eu viver livre e feliz pelo mundo?

- Então comecemos uma guerra! Não importa, não vou te deixar para trás. – Os olhos da minha amiga já começavam a lagrimejar.

- Começar uma guerra? Tá doida, Paula? Eu nem…

- Ah! Você é tão mártir quanto a Bella! Que saco, Julia! – ela aumentou o tom de voz agora ficando nervosa comigo.

- Você não entende. Ninguém entende! Ninguém sabe pelo o que eu estou passando e ainda se sentem no poder de me julgar! – esbravejei me levantando da cama.

Pude ver Paula se remexendo na cama e percebi que se ela pudesse já teria se levantado para ficar da minha altura. Então enquanto ela consumia minhas palavras seu ombro relaxou e ela pareceu se acalmar.

- Você tem razão. Eu não entendo. – Ela falou agora mais baixo.- Mas pretendo entender logo.

Franzi o cenho sem entender muito bem o que ela queria dizer com isso.

- Como assim?

- Jú, do mesmo jeito que você diz que não vai sair daqui, eu não vou sair humana. Eles já deixaram Daniela ir, você acha mesmo que deixariam mais uma humana sair por ai feliz e contente sabendo o segredo deles? – eu abri a boca para interrompê-la, mas não saiu som algum, então ela continuou – E além do mais, eu nem quero sair humana.

-Não quer sair humana? Como você quer sair então? – perguntei, o veneno começando a se espalhar pela minha boca, mas desta vez não por que eu queria sangue, mas sim por causa da raiva.

- Acho que você sabe como eu quero sair – ela murmurou.

Suas palavras caíram sobre mim como se pesassem uma tonelada. Então mais veneno lubrificou minha boca fazendo a raiva ficar ainda pior.

Era por isso que eu estava lutando? Por alguém que nem queria sair humana daqui? E se ela não saísse humana, para mim seria como uma batalha perdida. Por que eu sabia que se minha amiga fosse transformada ela jamais poderia voltar para sua família, para nossos amigos.

- Eu não acredit. – falei com desgosto. – Você realmente não entende. Isso não é como pensamos, Paula. Não é um conto de fadas onde tudo da certo no final! Hey, por mais que pareça um sonho, isso é a vida real. E na realidade ser vampira não é nem metade do que pensamos. Não é nem metade do que lemos nos livros nem vimos em filmes! Não é um dom, como imaginávamos, é uma maldição.

-Não é bem assim. Pra você é uma maldição e você nem é vampira direito.

-Se pra mim já é tão ruim, eu, que nem vampira direito sou. Imagine pra alguém que realmente é. – Senti minha voz perder o som conforme o bolo em minha garganta ia se formando e as lágrimas acumulavam-se nos meus olhos – Ou você acha que beber é sangue é bom? O gosto é maravilhoso, mas sentir a pessoa morrer em seus braços enquanto você tira a vida dela. É a pior sensação que existe. E por nada no mundo desejaria que alguém a sentisse, ainda mais você.

-Não há necessidade de matar ninguém e você sabe muito bem disso – ela falou a voz amarga, mas eu ainda podia ver as lágrimas em seus olhos lutando para sair, as minha estavam do mesmo jeito.

- Mas você vai querer. E vai matar se não conseguir se controlar. Agora eu te pergunto, Paula: Você conseguiria viver com a morte de uma pessoa em suas mãos?

Ela hesitou por um segundo antes de responder, mas pelo tom de sua voz eu sabia que Paula estava fraquejando.

-Alec vai me ajudar, assim como Edward ajudou Bella.

Revirei os olhos impaciente.

- Como ele vai te impedir se ele mata humanos para se alimentar toda semana? – perguntei descrente.

- Ele disse que vai parar.

- E deixar sua força e sua refeição favorita para trás? Vocês dois podem se gostar, mas ele ainda é um vampiro, Paula. E é só olhar para a cor da manta dele para ver isso. Talvez você não esteja confiando nas pessoas certas.

Seu olhar caiu para o meu corpo e depois voltou para os meus olhos. Agora ela parecia furiosa com os olhos apertados e respirando alto. Só então entendi que ela estava olhando para a minha manta que possuía a exata cor da de Alec.

- É, talvez eu não esteja.

Ficamos em silêncio por um tempo. Uma encarando a outra com olhares de ódio que jamais haviam sido trocados por todo nosso tempo de amizade. Então alguém bateu na porta fazendo-nos desconcentrar da briga.

- Paula, sou eu, Alec. Posso entrar? – a voz de Alec era baixa e doce.

- Claro. – ela falou e ele abriu a porta parando em frente a mesma quando me viu. – Você é bem-vindo aqui. – Paula continuou agora com o tom severo claramente com uma indireta para mim.

Eu pisquei por um instante e percebi o que ela queria dizer. Eu não era bem-vinda ali. Senti o bolo em minha garganta aumentar e meu estômago revirar. Não pensei duas vezes e saí do quarto com o passo mais rápido que eu pudesse andar sem que precisasse correr.


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